Diretamente de Berlim
Cenário: uma linda noite de primavera. Uma das mais instigantes personalidades do nosso tempo vem à cidade que você mora para se apresentar a duas quadras da sua casa.
Allen Stewart Konigsberg, mundialmente mais conhecido como Woody Allen, superou o seu pânico de avião, a sua bem conhecida sociopatia e a maior barreira de todas: deixar o seu maior amor, a cidade de Nova Iorque.
Clarinetista desde 15 anos, Woody Allen conserva de forma rigorosa o hábito de tocar todas as segundas feiras no Carlyle Hotel. Ele diz que toca lá porque pode ir a pé. Se fosse para entrar no metrô de Nova Iorque, nem pensar.
Quem chegou no local do show pensando só na celebridade cinematográfica foi logo pego de jeito pela competência musical de uma banda afinadíssima. Há dez anos os "rapazes", ao todo 7, dividem uma cumplicidade musical de deixar o mais exigente dos críticos, literalmente boqueabertos. Mas o que mais surpreende é a presença de palco de Woody Allen. Em nenhum momento ele rouba a cena dos companheiros. A performance aos poucos desabrochou em algo quase religioso, recheado de momentos de total concentração e profundidade musical sem entrar numa praia pseudo-intelectual. Ele só chegou à frente do palco para, no fim do show, apresentar os músicos, que juntos tem dois CD's: "The Bunk Project", de 1993, e "Wild Man Blues!", 1997. O número reduzido de discos, apesar da longa estrada, se deve a razões óbvias.
O filme Vicky Cristina Barcelona, com as incomparáveis Penélope Cruz e Scarlett Johansson, surgiu de um telefonema da cidade espanhola com alguém do outro lado dizendo assim: "Nós aqui temos 1 milhão de Euros para oferecer para o Sr. para fazer um filme que seja rodado aqui." Balbuciante, Woody Allen respondeu: ".....Vamos... vamos sim, a minha mulher gostaria mesmo de ficar mais tempo na Europa...". Woody Allen é um E.T., um cara muito esquisito e um gênio em quase tudo o que faz. Tudo isso junto!
As tentativas de, durante o show, devanear pensando em sua tragetória cinematográfica ou na sua vida pessoal mais do que complicada e cheia de etapas muito sombrias, foram em vão. A música em qualidade, espírito, técnica e principalmente no contexto da improvisação nos trazia de volta pro palco em tempo recorde. Woody Allen tem uma postura de total entrega quando faz seu solo de clarinete e uma postura religiosa enquanto pacientemente espera que os outros músicos deem o seu very personal tempero à salada musical, causando uma rodinha de devotos do lado direito do palco, agarrados na escada de metal como se não quisessem deixar aqueles caras irem embora nunca mais.
Durante o show, musicalmente intacto e no melhor espírito de New Orleans, a plateia se mostrava imóvel, claro, a priori por ter ali aquele que tem o número do celular da Penélope Cruz, já foi casado com vitamina energética Diane Keaton e também com Mia Farrow (sem final feliz), revolucionou a linguagem cinematográfica abordando temas que, deixando da mesma forma Hollywood e toda a população de Arkansas e outras tantas cidades conservadoras e republicanas, em estado de ira.
Quando chegou o que era pra ser a última música, Woody Allen apresentou os músicos e agradeceu o público de Berlim, o elogiando pela atenção e pela generosidade com a banda. Enquanto isso uma jovem menina dribla os seguranças e chega ao palco para dar um pacotinho a Allen, que depois de hesitar bastante só pegou para não se sair mal perante ao público. Sem ter qualquer ideia do que aquilo poderia ser, brincou o colocando no ouvido, como quem acabou de receber um radinho de pilha ou um Kinder Ovo. Tudo é surpresa.
Ao contrário de outros shows no Tempodrom, um local com formato de circo, a produção da banda exigiu que não ouvesse aproximação do público à beira do palco. Nem mesmo os quatro bis que a banda teve que dar mudou isto.
A verdadeira surpresa e o ápice do banquete musical ficou mesmo com os longuíssimos bis. Woody Allen, já em pé, balbuciava algo para os músicos e pronto. Tudo o que vinha era jam ou talvez nem tanto para quem toca junto há dez anos. Mesmo assim. Genial. Magistral. Empolgante. Um momento memorável ver aquele esquisitão com aquela armadura de óculos mais escura que as noites de inverno de Nova Iorque. Depois dos quatro bis e, como a platéia não parava de urrar, Allen voltou tímido à beira do palco e agradeceu três vezes, acenando timidamente com a mão como quem está com pressa, já atrasado pro cinema.
Cilânia
Uma atriz maravilhosa.