O filme Mammuth, dos diretores Benoit Delépine e Gustave de Kerven, tem todos os ingredientes para não sair de mãos abanando da noite de premiação, que acontece hoje às 19 horas, horário local, 16 horas horário de Brasília.
Com a melhor nata do cinema francês e o "dream team" Isabelle Adjani e Gérard Depardieu como protagonistas, o filme levou a plateia a boas gargalhadas ontem à noite, na cerimônia de gala no Berlinale Palast, principal cinema do Festival.
Principalmente Depardieu é forte concorrente a levar o Urso de Prata como melhor ator. Muitíssimo gordo e de cabelos longuíssimos, ele se despe perante a câmera, se deixa filmar nos ângulos mais infelizes, sem qualquer pudor estético. Berlim sabe sempre recompensar atitudes corajosas como esta. O plus deste filme é ainda que ele muitas vezes é politicamente incorreto, mas sincero e honesto. Estes ingredientes pedem, literalmente, por um Urso.
O filme, não recomendado a vegetarianos, começa quando Mammuth se aposenta de seu emprego no matadouro, onde trabalha. A festa de despedida entre ele, o chefe e os colegas é hilária. Colocada em cena com muita simplicidade e muitos detalhes significativos, é um verdadeiro gourmet cinematográfico.
Os dias que se sucedem ao dia D são repletos de catástrofes diárias, questionamentos filosóficos e um enorme ponto de interrogação do que fazer com o tempo livre. Para preenchê-lo Mammuth vai às compras no supermercado, onde trabalha sua esposa. Já que isso é estritamente proibido (fixado no contrato de trabalho), a esposa tem que ficar de castigo durante uma semana, trabalhando no departamento de peixes, que ela odeia.
De presente dos colegas da firma, Mammuth ganha um quebra cabeça de 7 mil peças.
Para requerer aposentadoria, Mammuth precisa ter, completo, os registros de todas as empresas em que trabalhou nos últimos anos. A esposa de Mammuth, vivida por Yolande Moreau, cola no encalço dele para que saia à procura de ex-empregadores para, assim, completar a papelada que falta. Ele é praticamente obrigado a pegar a motocicleta que há ano mofa na garagem e sair pelas cidades vizinhas, procurando ex-empregadores e ex colegas.
Quando ele finalmente bota o pé na estrada é que realmente começa o desenrolar da trama do filme. Encontros com ex-amigos, empresas que não existem mais e foram substituídas por empresas de novas tecnologias.
O road movie, de baixo orçamento, como assegurou o diretor na coletiva de imprensa, traz um cenário sem muitos retoques tecnológicos. As cenas são recheadas de muitas cores, a câmera, muitas vezes de mão, é muito rápida, sem se preocupar com as impurezas estéticas. Também a viagem de Mammuth é um resgatar do passado, das origens. Durante todo o tempo, Mammuth é acompanhado pelo grande amor de sua vida, vivida pela incomparável Isabelle Adjani.
Devido a um acidente de motocicleta ela morreu, mas continua como um anjo sempre presente ao seu lado. Mesmo com enormes cicatrizes no rosto, para esclarecer ao espectador o motivo de sua morte, Isabelle Adjani continua o mesmo deslumbre de outrora frente a câmera. Quando ela aparece, tudo ao redor fica invisível e o diretores mostram que sabem muito bem disso.
No final da cerimônia, ela disse em alemão: "Esta noite é para a minha mãe", sem entrar em maiores detalhes, mas angariando muitos aplausos da plateia. Gérard Depardieu agradeceu ao festival, à plateia e a Dieter (Kosslick), sem se prolongar no discurso.
Uma linha clara que toca todos os personagens do filme, independentemente de qual geração, mostra uma temática quase onipresente nos filmes do festival: o resgate do passado, a procura da identidade, a tentativa de se posicionar na sociedade, no mundo. Deliciosamente os diretores colocam em cena esta necessidade pelo simples, com as cores ofuscantes do pullover da sobrinha de Mammuth, do céu azul com nuvens desarrumadas, dos diálogos à primeira vista sem nexo, da dificuldade de comunicação entre as pessoas. A sobrinha de Mammuth, vivida por Miss Ming, é a única que consegue imediata comunicação no âmbito emocional com ele.
Com esses ingredientes e muitas boas risadas, o filme tem tudo para conquistar o júri, que este ano com certeza terá trabalho fácil, já que a competição é uma das piores dos últimos anos. Nesta seleção muitíssimo incoerente e infeliz, Mammuth é um verdadeiro horizonte azulado.
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